Estudo do Pão de Açúcar não detecta sinais de crise no consumo

Quinta-feira, 05 de março de 2009


Empresas de varejo que driblam a crise

Empresas de varejo, com ações listadas na Bolsa de Valores de São Paulo, devem sofrer os efeitos da crise de forma distinta. Enquanto o setor de vestuário prevê continuidade da desaceleração de vendas – iniciada em setembro - e redução no ritmo de inaugurações de novas lojas em 2009, o setor de cosméticos espera crescimento da receita e investimentos. Os supermercados também devem manter um bom resultado. As diferenças de desempenho ficaram claras, com a divulgação dos balanços do quarto trimestre do ano passado das principais empresas do setor.

 

"Estamos atentos com a crise, mas olhamos com bastante entusiasmo para 2009", disse o diretor-presidente da Natura, Carlos Carlucci, após a divulgação do maior lucro líquido, para um quarto trimestre, da empresa desde 2004, quando abriu capital na Bolsa. Entre outubro e dezembro, o ganho foi de R$ 163 milhões, um aumento de 20% sobre o mesmo período de 2007. "Não temos motivos para acreditar que nosso mercado cresça menos em 2009."

 

Para sustentar o crescimento, a Natura vai ampliar em 40% seus investimentos em relação ao ano passado, atingindo R$ 140 milhões. Os aportes serão destinados à infraestrutura, sistemas de informação e equipamentos para o lançamento de novos produtos. "Vamos manter os investimentos porque, em relação a outros setores, estamos numa posição privilegiada", afirmou Carlucci.

 

Assim como a Natura, outra rede varejista que tende a driblar a crise é o Pão de Açúcar. Aproximadamente 75% das vendas totais do grupo são de produtos alimentícios, que não vêm sendo afetados pela restrição ao crédito. A Fator Corretora destaca, em relatório enviado a clientes, que o Pão de Açúcar deverá apresentar no período o melhor resultado entre as empresas do setor devido a esse foco na venda de produtos que são de primeira necessidade.

Vestuário em baixa

Um quadro menos animador, porém, vem sendo observado no varejo de vestuário. As vendas nas Lojas Renner, quando são comparadas apenas as unidades com mais de um ano de funcionamento, caíram 5,4% entre os meses de outubro a dezembro do ano passado sobre o mesmo período de 2007. Isso resultou numa queda de 0,7% no lucro líquido do período, para R$ 57 milhões. E a perspectiva para os primeiros meses do ano não são de recuperação, previu o diretor Administrativo e de Relações com Investidores da Lojas Renner, José Carlos Hruby.

 

"De setembro em diante, em razão do novo cenário, os negócios atingiram um novo patamar bem mais baixo, com queda nas vendas, o que afetou o desempenho de 2008", explicou Hruby. Até os nove primeiros meses do ano passado, a companhia vinha com um crescimento próximo a 7% nas vendas - índice que recuou a 2,7%, quando consolidados anualmente com os resultados do quatro trimestre. "As dispensas que vêm ocorrendo nas mais diversas indústrias, realmente, estão afetando nossos negócios."

 

Sem perspectiva de melhoria nas vendas, a Lojas Renner reduziu seus investimentos programados para este ano, quando comparados com 2008. No ano passado, foram R$ 137 milhões, sendo R$ 84 milhões destinados para a abertura de 15 lojas, em oito Estados. Já para 2009, os investimentos ficarão entre R$ 75 milhões e R$ 80 milhões, na abertura de oito novas lojas.

 

Outra rede de vestuário que reduziu investimentos para a abertura de novas lojas foi a Marisa. Em 2008, a rede abriu 18 unidades, com aportes de R$ 55 milhões, enquanto a previsão para este ano é de seis novas lojas, ao custo de R$ 15 milhões. Mesmo com crescimento de 2,9% das vendas no quarto trimestre de 2008, a taxa foi inferior aos 3,5% do quarto trimestre de 2007.

 

Dependência de crédito

 

Os dados da pesquisa mensal de varejo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) relativos ao quarto trimestre do ano passado mostram que os segmentos que mostraram desaceleração mais forte no crescimento são os que têm relação mais estreita com o crédito. A atividade de móveis e eletrodomésticos, que vinha registrando expansões trimestrais de dois dígitos, cresceu 7,7% no quarto trimestre de 2008 ante igual período do ano anterior, uma expansão três vezes menor do que a do terceiro trimestre (17,7%).

 

Perda ainda maior ocorreu no setor de tecidos, vestuário e calçados, que registrou queda de 5,4% no último trimestre do ano passado sobre o mesmo período de 2007. As boas perspectivas da Natura estão em sintonia com os resultados de artigos farmacêuticos, de perfumaria e cosméticos. Neste caso, houve ligeira alta do crescimento no quarto trimestre, para 13,9%, ante uma expansão de 13,5% no terceiro trimestre.

 

Em relatório a clientes, a Brascan Corretora destaca que, em momentos de crise, o consumo de produtos de menor valor agregado e que não dependem de crédito, como os cosméticos, tendem a ganhar força. "O nosso modelo de negócios, baseado na venda direta, historicamente, tem resultados positivos, independentemente de crises", afirma Carlucci, da Natura.

 

Essa reportagem foi originalmente publicada no AE Empresas e Setores, serviço de informações e análises sobre o setor corporativo da Agência Estado.


fonte: AE